Guerra e Paz: a mais bela edição para o mais atual dos clássicos
A edição mais bonita da minha estante: capa almofadada vermelha, laterais douradas e tradução direta do russo. Por que Guerra e Paz continua atual.
EDIÇÕES
Ricardo Flor
9/7/20266 min read
Guerra e Paz: a mais bela edição para o mais atual dos clássicos
Por Ricardo Flor
Há livros que a gente compra para ler. E há livros que a gente compra porque precisa tê-los por perto. Guerra e Paz é, para mim, os dois ao mesmo tempo — mas, confesso, por enquanto tem sido mais o segundo.
Esta é, sem exagero, a edição mais bonita da minha estante. E quando digo "mais bonita", não estou falando de uma preferência vaga. Estou falando de um objeto que, toda vez que passo os olhos pela prateleira, me faz parar. A capa almofadada em tom vermelho profundo, o marcador de páginas em fitilho, e as laterais do livro — que aprendi que se chamam laterais douradas ou, no jargão editorial, "tie-dye" dourado — banhadas em ouro. É um livro que impõe respeito antes mesmo de ser aberto.
A edição em detalhes
Esta é a Edição de Luxo Almofadada da Editora Garnier. Capa dura com aquele toque macio que dá vontade de segurar, acabamento em hot-stamping (detalhes dourados ou prateados em relevo na capa e lombada), laterais douradas e marcador de páginas em fitilho. São 976 páginas, tradução direta do russo, com introdução de Oscar Mendes.
A tradução direta do russo é um detalhe que merece destaque. Muitos clássicos russos chegaram ao Brasil por traduções indiretas — do francês ou do inglês —, o que inevitavelmente adiciona uma camada de interpretação entre o autor e o leitor. Esta edição vai direto à fonte. Para um livro como Guerra e Paz, em que cada nuance de linguagem carrega o peso de uma filosofia inteira, isso importa.
Mas o que me fez comprá-la, antes de qualquer consideração literária, foi a beleza. E não me envergonho disso. Como escrevi no primeiro post deste blog, a edição bela tem valor em si. Ela não é apenas um invólucro. Ela é um convite. E este livro, especificamente, é um convite que me chama todos os dias.
O que é Guerra e Paz?
Vou ser honesto: ainda não li as 976 páginas. Mas estudei a obra o suficiente para saber do que ela trata, e o que sei me fascina.
Guerra e Paz é um romance épico publicado entre 1865 e 1869. A narrativa se passa entre 1805 e 1820 e acompanha cinco famílias aristocráticas russas — os Bezukhov, os Bolkonsky, os Rostov, os Kuragin e os Drubetskoy — antes, durante e depois da invasão napoleônica de 1812. São mais de 500 personagens, alguns ficcionais, outros históricos, como o próprio Napoleão e o imperador Alexandre I.
Mas reduzir Guerra e Paz a uma história sobre a Rússia napoleônica é perder o essencial. O livro é, na verdade, uma meditação sobre a História — sobre como ela é feita, quem a faz, e o que significa viver em meio a ela. Tolstói entrelaça batalhas, bailes, casamentos, mortes e epifanias numa tapeçaria que, segundo o próprio autor, busca borrar a linha entre ficção e história para chegar mais perto da verdade.
E aqui está a tese que, para mim, é o coração do livro: a verdadeira paz não é a ausência de conflitos, mas a libertação das ilusões que nos levam às nossas "guerras" pessoais sem sentido. Tolstói mostra isso através das desilusões de seus personagens — o príncipe Andrei, que busca glória militar e encontra a morte; Pierre Bezukhov, que busca sentido em tudo e só o encontra no mais simples; Natasha Rostova, que busca amor e encontra a si mesma. E mostra também através da desconstrução de Napoleão, que Tolstói retrata não como gênio, mas como um homem vaidoso arrastado por forças que não controla.
O rigor histórico de uma obra que parece um romance
Uma das coisas que mais me impressiona em Guerra e Paz é o rigor histórico. Tolstói não inventou uma história e a chamou de histórica. Ele fez o trabalho.
Leu todas as histórias padrão disponíveis em russo e francês sobre as Guerras Napoleônicas. Entrevistou pessoas que viveram a invasão de 1812. Leu cartas, diários e materiais autobiográficos de Napoleão e de dezenas de outros personagens históricos. O livro contém aproximadamente 160 pessoas reais mencionadas ou referidas.
O objetivo de Tolstói, como ele mesmo declarou, era borrar a linha entre ficção e história para chegar mais perto da verdade. Ele era crítico ferrenho da história militar convencional, que atribuía eventos a "grandes homens" e a decisões geniais. Para ele, Napoleão não era um gênio — era um carneiro que se convenceu de que liderava o rebanho, quando na verdade era arrastado por forças que não compreendia.
Essa desconstrução do "grande homem" é uma das contribuições mais profundas do livro. Tolstói não nega que Napoleão existiu ou que suas ações tiveram consequências. Ele nega que Napoleão controlava os eventos. A História, para Tolstói, é feita por milhões de ações individuais, cada uma minúscula, cada uma impulsionada por ilusões e necessidades que ninguém compreende completamente.
Por que ler (ou ter) este clássico hoje?
Guerra e Paz foi publicado há mais de 150 anos. E, no entanto, poucas obras parecem tão atuais.
A invasão da Ucrânia reacendeu o interesse global pelo livro. Analistas e leitores começaram a usar Tolstói como chave para entender a mentalidade russa e a natureza dos conflitos no Leste Europeu. A tese que emergiu é perturbadora: Tolstói já escreveu sobre isso. A defesa da terra, a guerra de atrito, a "paciência e o tempo" como estratégia — tudo isso está no livro. A diferença é que, em Guerra e Paz, a Rússia é a invadida, não a invasora. Mas a lógica da guerra, da ilusão e do sofrimento humano é a mesma.
Não vou entrar aqui na geopolítica do conflito. Não é meu papel. Mas é impossível ler Tolstói hoje e não pensar em como suas reflexões sobre guerra, poder e paz continuam terrivelmente atuais. E é por isso que Guerra e Paz não é um livro de museu. É um livro vivo.
Por que a obra é tão elogiada
Se você ainda não se convenceu, deixe que outros falem.
Romain Rolland, Prêmio Nobel de Literatura, chamou Guerra e Paz de "a mais vasta epopeia do nosso tempo, uma Ilíada moderna". Julian Huxley, biólogo e escritor britânico, disse algo que considero ainda mais poderoso: "As pessoas que leram Guerra e Paz de Tolstói não são mais as mesmas."
E há uma passagem do próprio Tolstói que resume tudo. Em certo momento, ele escreve: "A coisa mais difícil é saber que nada sabemos, e esse é o mais alto grau da sabedoria humana." É uma frase que, vinda de um homem que passou a vida inteira tentando entender a História, a guerra e a alma humana, carrega um peso enorme.
A edição como objeto de desejo
Volto à edição. Porque, para este blog, a edição importa.
A Edição de Luxo Almofadada da Garnier é descrita pelos próprios editores como "uma joia indispensável na coleção de qualquer amante da literatura clássica". E é exatamente isso que ela é. Não é uma edição para levar na mochila e ler no ônibus. É uma edição para ter em casa, para folhear com cuidado, para exibir na estante.
O vermelho da capa almofadada, o dourado das laterais, o fitilho do marcador — tudo comunica que este é um objeto pensado para durar. Para ser passado adiante. Para ser um presente que fala por quem dá e por quem recebe.
E, como escrevi no primeiro post, a edição bela tem um poder que não é apenas estético. Ela convida à leitura. Ela reduz a distância entre o leitor e o texto. Ela diz, todos os dias, quando você passa por ela: "vem me ler." E, mesmo que você ainda não tenha atendido a esse chamado, o convite permanece.
Uma nota honesta
Não li Guerra e Paz na íntegra. Não vou fingir que li. Mas estudei sua estrutura, sua história, sua recepção. Conheço os personagens principais, as batalhas centrais, a tese que atravessa o livro. E conheço esta edição — seu papel, seu acabamento, sua tradução — melhor do que conheço a maioria dos livros da minha estante.
Se você quer saber se a história é boa, há milhares de resenhas. Se você quer saber se esta edição vale o preço, eu posso ajudar. E a resposta é: vale. Vale pela tradução direta do russo. Vale pela introdução de Oscar Mendes. Vale pelo objeto em si. Vale por ter, na estante, um lembrete diário de que a verdadeira paz — aquela que Tolstói buscava, e que seus personagens às vezes encontravam, às vezes não — não é a ausência de conflitos, mas a libertação das ilusões.
E vale, talvez, pela promessa de que um dia eu vou lê-lo. Não porque preciso. Mas porque, todos os dias, ele me convida.
Se você quiser conferir esta edição na Amazon, o link está abaixo. Lembrando que, como Associado da Amazon, eu recebo por compras qualificadas.